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O caderno 2 do Público de hoje tem um perfil da ministra a Educação feito por Andreia Sanches. Permite-nos conhecer melhor a personagem que está no centro da maior convulsão de sempre na educação. Quando, em entrevista que acompanha o perfil a jornalista pede a Maria de Lurdes que partilhe um dos bons momentos por que tem passado, a Ministra da Educação sai-se com esta:

“Uma carta que recebi de um menino que recebeu um computador para ter em casa, não sei já em que circunstância, e escreveu-me a dizer: ‘Quando for grande, vou inscrever-me no PS.’ É tocante.” 

É tocante sim senhora… A mim toca-me fundamentalmente nas paredes do estômago.

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De acordo com as notícias, Maria de Lurdes Rodrigues está-se a preparar para recuar no caso da avaliação dos professores. Os sinais interpretados pelos jornalistas chegam no mesmo dia em que um despacho da 5 de Outubro clarifica o novo Estatuto do Aluno, nomeadamente quanto à justificação das faltas.

Estes dados surgem depois daquela que foi a semana mais negra para a titular do Ministério da Educação, com os professores a manifestarem-se consecutivamente e os estudantes a paralisaram os estabelecimentos de ensino.

Como escrevi aqui, Maria de Lurdes Rodrigues estava a ficar sem interlocutores. O seu trabalho reformista no sistema de ensino estava em risco pela sua postura intransigente.

Ministra e secretários de Estado tudo fizeram para desprezar o descontentamento e a mobilização de professores e estudantes. Mas a voz que vinha da rua era mais poderosa do que alguma vez suposeram.

Neste recuo – a ver vamos – está um dedo de José Sócrates, que teve mesmo de ouvir António Costa, o seu número 2, fazer avisos à navegação.

A estratégia mais óbvia era a demissão de Maria de Lurdes Rodrigues. A exemplo do que aconteceu com Correia de Campos, a sua saída serviria para diminuir a contestação e para continuar com uma mesma política mas com outra estratégia de comunicação.

Mas Maria de Lurdes Rodrigues é uma ministra com um peso político bem maior do que o que tinha o antigo titular da Saúde. E a sua política reformista é também mais forte. Além de que a luta contra o corporativismo cala fundo em vários sectores da sociedade.

José Sócrates terá assim optado por aconselhar a sua ministra a mudar de estratégia. Em vez de se fazer um ponto de situação no final do ano lectivo, juntam-se desde já os diversos intervenientes para fazer uns ajustes no processo de avaliação e, assim, diminuir o poder de mobilização de uma classe inteira que estava disposta a enveredar por outras formas de luta que poderiam colocar em risco o funcionamento das escolas.

Em vez de mudar de ministra, mantém a reformadora e dá-lhe a oportunidade de subir alguns pontos de popularidade.

O problema é que talvez já seja demasiado tarde. Só o saberemos quando ouvirmos a ministra a falar do seu recuo. Só o saberemos quando a ouvirmos dizer o porquê. A a forma como o fará.


Com 13 anos, o meu filho faltou hoje às aulas. Como milhares de outros por esse país fora. Quando lhe perguntei as razões do protesto, disse-me que era contra a ministra da Educação. Não adiantou muito mais, claro. No seu dia-a-dia não tem grandes razões de queixa. A escola funciona e o corpo lectivo é de qualidade.

Foi na onda, como tantos outros. Quando tinha os meus 15 anos também ajudei a fechar escolas em dias de greve. Tinha uma consciência cívica e política bem mais forte do que a do M. Era mais velho e os tempos eram outros.

Então como agora, os governantes disseram que havia instrumentalização e forças estranhas às escolas a trabalharem.

Então como agora, as razões dos que protestam podem não ser as mais fundamentadas. Mas que não haja dúvidas. Só havendo descontentamento efectivo é que se consegue levar os alunos a encerrar escolas – não digo a fechá-las a cadeado, mas a encerrá-las por falta de comparência.

É evidente que para os jovens estes protestos são também uma festa. O meu apareceu-me em casa a pedir uns trocos para almoçar com os colegas e a dizer-me que a praça central da cidade estava a encher-se de estudantes que confluiam dos vários estabelecimentos lectivos.

Disse-mo com um brilho nos olhos e revi-me nesse entusiasmo. Pedi-lhe só que me explicasse o porquê e que tivesse cuidado. Protestasse mas não entrasse em conflitos nem em vandalismos.

E como é que o governo reagiu a esta acção dos estudantes? Fugindo para a frente, disparando em todas as direcções, espalhando insinuações de instrumentalização dos alunos pelos professores.

Sinceramente não acredito. Vejo muito mais uma organização política juvenil de um qualquer partido da oposição a fazê-lo. E estão no seu direito. E só pega, como disse, se os miúdos estiverem descontentes. Francamente, não vejo aqui qualquer conspiração, antes um direito e – direi mais – um dever. Coisa muito diferente, e condenável, é atirar ovos e tomates a membros do executivo. A quem quer que seja.

Para isso, bastam uns quantos mais “radicais” ou “instrumentalizados”, para utilizar a terminologia da 5 de Outubro. Caso muito diferente é fecharem-se escolas por falta de comparência dos alunos.

A equipa ministerial da Educação é hoje uma carta fora do baralho. Não consegue já estabelecer pontes com os professores, está em vias de o não conseguir fazer com os alunos. Ficam com poucos interlocutores.

O primeiro-ministro não vai – não pode – remodelar a equipa. Como não o fez com Correia de Campos na Saúde. Tem de esperar que Maria de Lurdes Rodrigues perceba que está a mais. Ela acabará por – como Correia de Campos – intuir que a reforma que lhe é tão grata só terá condições de avançar com o seu sacrifício.

Cheira-me que a ministra da Educação vai já passar o Natal de férias.

E desejo que o próximo titular não coloque na sua equipa Valter Lemos, a verdadeira eminência parda da política educacional dos últimos anos.