William Mark Felt teve um papel preponderante na história do jornalismo moderno, quando há mais de 30 anos foi a fonte de Woodward e Bernstein na investigação do escândalo Watergate que levaria à demissão do presidente norte-americano Richard Nixon.
Morreu esta semana com 95 anos. Em 1972 era director-adjunto do FBI e concluiu ser seu dever denunciar os abusos da administração Nixon. Viveu na sombra até há três anos, altura em que contou à família ser ele o “garganta funda”.
“Garganta Funda” foi o nome com que os jornalistas identificaram a sua fonte junto do editor do Washington Post e que ganhou a luz do dia no filme “Os Homens do Presidente”.
Agora que é de lei a obrigatoriedade de os jornalistas revelarem as suas fontes quando a isso instados pelo poder judicial, o facto de Felt ter vivido na sombra durante mais de 30 anos e de os autores da mais importante história do jornalimo moderno nunca terem revelado o seu nome é um exemplo para aqueles que actualmente fazem do jornalismo a sua profissão. E também para os poderes, públicos e privados.
O Código Deontológico dos Jornalistas especifica que as fontes só podem ser reveladas se conscientemente enganarem os jornalistas. Tirando essa excepção, o seu anonimato é garantido. Ainda há cerca de um ano o jornalista Manso Preto foi julgado por se negar a dizer o nome de uma sua fonte em fase de inquérito judicial. Foi absolvido, mas são muitos os sinais de que a protecção das fontes é, cada vez menos, um dos pilares sagrados da liberdade de imprensa.
Ainda agora o Grupo Parlamentar do Partido Socialista fez saber que avançaria para inquéritos se algo transpirasse das sessões à porta fechada da comissão que investiga as fraudes bancárias.
É muito mais do que o dedo em riste a avisar eventuais “prevaricadores”. É o dedo em riste da maioria a avisar todos os jornalistas e – fundamentalmente – todas as fontes de todas as histórias. É o jornalismo de investigação que está em risco.